Moralidade depende de Deus? por Edward Feser

Moralidade depende de Deus? (Atualizado)

Edward Feser

Tradução: Carpinteiro do Universo

Fonte: Does Morality Depend on God? (Updated)

Não da maneira que muitos pensam. Um leitor pediu-me para comentar neste post de Trent Dougherty no Prosblogion. Dougherty nota que se alguém aceita o essencialismo aristotelista, parece seguir daí que ele deve permitir que moralidade possa ter um fundamento, ainda que não exista um Deus. Pois de um ponto aristotelista de vista, o que é bom para o ser humano, e portanto como devemos tratar os seres humanos, é determinado pela natureza humana, e a natureza humana é o que é, existindo ou não um Deus. Bem, eu penso que Dougherty está mais ou menos certo sobre isto, apesar de que eu qualificaria o que ele disse de maneiras que eu explicarei presentemente. E como eu argumentara em outro lugar (p. ex. em The Last Superstition), não é o ateísmo per se que ameaça a possibilidade de moralidade, pelo menos não diretamente. Em vez disso, o que a ameaça é concepção mecanística ou anti-teleológica (e portanto anti-aristotelista) de mundo natural que ateus modernos geralmente estão comprometidos com, e que eles (falsamente) assumem ter sido estabelecida pela ciência moderna.

Mantenha em mente que de u ponto de vista aristotelista, teleologia ou causalidade final é imanente à ordem natural de uma maneira que não é imanente a artefatos, da maneira explicada em meu recente post sobre natureza VS arte{em breve}. Para tomar um exemplo daquele post, uma rede feita de cipós de trepadeira não tem sua função de rede inerentemente, mas apenas relativa ao artífice que a impõe externamente. Os cipós por si só, em contraste, têm suas tendências de cipó inerentemente, apenas pela virtude de serem cipós. As tendências de cipó seguem de sua natureza ou forma substancial, enquanto as tendências de rede não são, mas resultam de um mero arranjo acidental (no sentido técnico aristotelista de “acidental”). E então o que é bom para uma trepadeira – isto quer dizer, o que constitui seu florescimento como o tipo de coisa viva que é (tomar água e nutrientes, exibir tal e tal padrão de crescimento, etc.) – é determinado pelos fins que seguem de sua natureza ou forma substancial.

Agora, teoria da lei natural como entendida pela tradição aristotelista-tomista (A-T) pressupõe este entendimento de objetos naturais. Seres humanos, como qualquer outra substância natural, têm uma forma ou natureza substancial, e o que é bom para eles — o que constitui seu florescer — é determinado pelos fins ou causas finais que seguem de ter tal tipo de natureza ou forma substancial. Mas assim como nós determinamos as causas eficientes das coisas sem fazer referência a Deus, assim também nós podemos normalmente determinar as causas finais das coisas sem fazer referência a Deus. E portanto, bem como quando podemos fazer estudo da Física, Química, e semelhantes sem fazer referência a Deus, assim também fazer Ética sem fazer referência a Deus, pelo menos em uma grande extensão. Pois nós podemos conhecer o que é bom para uma coisa se pudermos conhecer sua natureza, e podemos conhecer sua natureza por investigação empírica guiada por uma metafísica consistente (A-T). Pelo menos em uma grande extensão, então, nós podemos saber o que a lei natural diz apenas pelo estudo da natureza humana e à parte de qualquer espécie de revelação divina. É por isso que é uma lei natural. Bondade, ou pelo menos a sua possibilidade, é justamente natural para nós (como Philippa Foot poderia dizer).

Agora obviamente, seres humanos, cipós de trepadeira, e tudo mais não pode, de um ponto de vista A-T, existir mesmo por um instante a não ser que Deus as conserve em existência. Eles também não teriam o poder causal que têm mesmo por um instante se Deus como primeira causa não lhes transmitisse tal poder causal a todo momento. Tudo isto é (eu diria) o que as versões A-T do argumento cosmológico, corretamente entendidas, estabelecem. Semelhantemente, seres humanos, cipós de trepadeira, e outros fenômenos naturais não podem manifestar a teleologia ou causalidade final que eles têm ainda que por um instante Deus não estivesse continuamente “dirigindo-os” para seus fins. Isto é (eu diria) o que a Quinta Via, se corretamente entendida, estabelece. Mas bem como as versões A-T do argumento cosmológico não acarretam que objetos naturais não tenham real poder causal, assim também a Quinta Via não acarreta que objetos naturais não tenham teleologia inerente. Para usar o jargão metafísico tradicional, a realidade das “causas secundárias” é perfeitamente compatível com a ideia A-T que todas as causas naturais devem ultimamente a todo momento derivam seu poder causal de Deus; A-T rejeita firmemente o ocasionalismo. Semelhantemente, a realidade da teleologia imanente ou “embutida” como Aristóteles a entendia é perfeitamente compatível com a ideia de que toda teleologia ultimamente deriva de Deus.

“Ultimamente” é a palavra chave aqui. É porque causas secundárias são reais que a ciência é possível. Quando estudamos o mundo físico, estamos estudando como as coisas físicas em si mesmas comportam-se dada sua natureza, não os atos caprichosos de Deus. E é porque teleologia imanente é real que lei natural é possível. Quando estudamos ética, estamos estudando o que é bom para seres humanos dada sua natureza, não comandos divinos caprichosos. Ultimamente os fatos estudados pela ciência e os fatos estudados pela ética dependem de Deus, porque tudo depende, a cada instante, de Deus. Neste sentido, ciência, ética, e tudo o mais depende de Deus. Mas proximamente ética pode ser feita pelo menos em uma grande extensão sem fazer referência a Deus, bem como ciência natural pode. Neste sentido, muitas verdades morais ainda seriam verdadeiras se, per impossível, não houvesse Deus — da mesma forma que a tabela periódica de elementos químicos seria o que é mesmo se, per impossível, não existisse Deus. (Tudo isso é discutido no capítulo cinco de Aquinas. E veja a primeira metade deste artigo para um rascunho da teoria da lei natural A-T.)

Agora isto não significa que Deus é irrelevante para ética; longe disso. Por uma coisa, apenas parte da lei natural pode se conhecida sem referência a Deus. Por exemplo, que assassinato, mentira, adultério, desonrar os pais, etc. são contrários ao bem para nós pode ser conhecido a partir de um exame da natureza humana, simplesmente. Mas o fato que Deus existe naturalmente tem implicações morais por si só, e desde que para A-T a existência de Deus pode também ser conhecida mediante razão natural, existem certas obrigações religiosas bastante gerais (bem como a obrigação de amar Deus) que podem ser conhecidas mediante razão simplesmente, e portanto formam parte da lei natural. (De fato, estas são nossas maiores obrigações debaixo da lei natural.) Então há o fato que as naturezas das coisas, incluindo natureza humana, derivam ultimamente daquelas ideias no intelecto divino que formam os arquétipos com referência aos quais Deus cria. (Desta maneira moralidade não é para o A-T nem independente de Deus e nem baseada em arbitrários comandos divinos, como expliquei num post sobre a objeção de Eutífron.) Adicionalmente, para A-T, uma abordagem completa da obrigação moral requer referência a Deus como legislador (mesmo se obrigação moral possa proximamente ser explicada com referência ao fim natural da vontade). Finalmente, revelação divina é também necessária para uma abordagem completa da vida moral diária. Por um lado, revelação divina expõe determinados detalhes acerca da moralidade que o intelecto humano é fraco demais para descobrir confiavelmente por si só. Por outro lado, alguns aspectos da lei natural são tão requisitadas que muitas pessoas são realisticamente aptas de viver neles somente se for dada a esperança de recompensa no além-túmulo, ou algum tipo de promessas por revelação divina. (Novamente, todas essas questões são discutidas em Aquinas. Veja o capítulo 8 do primeiro volume de The Science of Ethics de Michael Cronin, para um tratamento útil sobre das bases próxima e definitiva da obrigação moral.)

Apesar disso, desde que em uma grande extensão os fundamentos e conteúdo da moralidade podem ser conhecidos a partir de um estudo da natureza humana, segue que em uma grande extensão moralidade poderia ser como ela é ainda que serres humanos existissem e Deus não. Pois, novamente, moralidade não é é baseada em comandos divinos arbitrários mais que leis científicas são expressões de algum desejo divino arbitrário. Do ponto de vista A-T, “teoria dos comandos divinos” (ou pelo menos a versão tosca da teoria dos comandos divinos que toma as fundações e o conteúdo da moralidade como repousando no absoluto fiat divino) é, diria eu, comparável ao ocasionalismo, e semelhantemente objetável. (Cf. meu recente post sobre Ockham.)

Como eu disse, então, ateísmo per se não é uma ameaça direta à possibilidade própria da moralidade. Alguém que negue a existência de Deus mas aceite o essencialismo aristotélico pode ter bases para aceitar pelo menos parte da lei natural. Assim alguém também poderia endossar uma forma ateísta de platonismo (se é que existe esta coisa). Mas optar por uma visão completamente anti-essencialista e anti-teleológica do mundo — uma que mantém que a ordem natural é inteiramente mecânica e não existe nada além desta ordem — seria, o filósofo A-T argumentaria, minar a possibilidade de qualquer espécie de moralidade afinal. Pois isto remove inteiramente do mundo essências e causas finais, e portanto a possibilidade de fazer sentido do bem como uma característica objetiva da realidade. (Veja The Last Superstition para detalhes.) E desde que o ateísmo moderno tende a definir-se em termos de tal visão radicalmente anti-teleológica ou mecanicista do mundo, ele também é nesta medida incompatível com qualquer possível moralidade.

UPDATE: Frank Beckwitt comenta sobre Dougherty aqui.


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